O acidente vascular cerebral (AVC) é uma importante causa de incapacidade e morte no mundo todo. É imperativo agir rapidamente diante de um quadro de AVC a fim de evitar complicações graves. Existe uma máxima no meio médico de que ‘time is brain’, ou em português ‘tempo é cérebro’, uma vez que a cada 1 hora de AVC isquêmico até 120 milhões de neurônios são perdidos. Portanto, não há dúvidas de que o AVC constitui uma das maiores emergências neurológicas.

Apesar dos grandes impactos sociais e econômicos causados pela doença, a verdadeira revolução no tratamento de AVC isquêmico é recente, só ocorrendo em 1995 com a introdução do ativador do plasminogênio (tPA), droga que permite a recanalização do vaso obstruído e melhora a capacidade funcional dos pacientes. Esta medicação, tPA, é chamada de trombolítico e o tratamento em que se aplica o tPA via venosa é chamado de trombólise. Este procedimento é realizado no Instituto de Neurologia de Goiânia desde o ano 2000.

Outra modalidade no tratamento do AVC, também inovadora e ainda mais recente na história, é o tratamento endovascular, chamado de trombectomia mecânica. Esta terapia consiste em realizar via cateterismo a remoção do coágulo através de stent.

O grande problema do tratamento do AVC, no entanto, sempre foi o tempo. Apesar de revolucionária, a trombólise só era benéfica para aqueles pacientes que recebiam trombolítico em um período muito curto de tempo, de máximo 4 horas e meia após o início dos sintomas.  O que por um lado consiste em um avanço, por outro exclui uma densa camada da população que não consegue chegar a tempo ao serviço médico especializado, principalmente aqueles que residem em áreas mais distantes dos grandes centros.

O desafio dos pesquisadores passou a ser, então, conseguir cada vez mais aumentar o tempo em que pacientes poderiam receber tratamento, tempo este chamado de ‘janela terapêutica’, no intuito de beneficiar mais e mais pessoas.

Foi em 2015 que surgiram os primeiros estudos que comprovavam o benefício da trombectomia mecânica em uma janela de tempo maior, dentro de 6 horas do início dos sintomas – estudo MR CLEAN.

Outra grande revolução no tratamento do AVC aconteceu em 2018, ano em que outro estudo, DAWN, ampliou a janela da trombectomia mecânica de 6 para 24 horas. As descobertas e revoluções não pararam. Em 2019, foi a vez da trombólise venosa ter seu tempo expandido de 4,5 horas para até 9 horas do início dos sintomas em pacientes selecionados, pelo estudo EXTEND.

O que existe em comum em todos estes trabalhos revolucionários e que proporcionou todos estes avanços no tempo de tratamento foi, sem dúvida, o aperfeiçoamento dos exames de imagem.  O software americano RAPID esteve presente em todos estes estudos citados e possibilitou ampliar a janela terapêutica no AVC em até 24 horas.

Esta ferramenta, adicionada às máquinas de tomografia e de ressonância, possibilita ao médico enxergar se existe tecido cerebral salvável, mesmo quando os sintomas começaram há mais de 4,5 horas ou até mesmo quando não se pode determinar o início dos sintomas.

Recentemente o Instituto de Neurologia de Goiânia realizou um alto investimento e adquiriu o software RAPID, ferramenta que estava restrita apenas aos estudos e agora é uma realidade em nosso serviço na prática diária.

Agora, não nos atemos de forma rígida somente ao tempo, mas sim, falamos em ‘janela de perfusão tecidual’. Isto significa que enquanto houver tecido cerebral viável naquele paciente, podemos tratá-lo para evitar seqüelas e melhorar a qualidade de vida, seja com 4, 6, 12 ou 24 horas de sintomas.

As implicações e benefícios desta aquisição são enormes. Pacientes advindos do interior ou de outras regiões do país tem chance de receber tratamento dentro das 24 horas. Pacientes que foram dormir bem, mas acordaram com sintomas de AVC, o chamado ‘wake-up stroke’ também tem a possibilidade de serem tratados.

É importante salientar que tempo continua sendo importante e quanto mais rápido o paciente chega ao nosso serviço, mais podemos fazer por ele. Faz parte de nossa missão o comprometimento em fornecer o melhor aos nossos pacientes, e a aquisição do RAPID ilustra mais um capítulo em nossa história de pioneirismo e excelência.

Dra. Louise A Lobo-Lopes

CRM 20.079 / RQE 12.785

Equipe de Neurologia do ING

 

Referências:

https://www.rapidai.com/about

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6753251/

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1706442

https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC6128437/

https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa1813046