Doença de Parkinson: Aspectos Gerais e Tratamento Cirúrgico

 A doença de Parkinson (DP), descrita originalmente por James Parkinson em 1817, afeta cerca de 1% da população mundial com idade superior a 65 anos, sendo mais comum em homens que mulheres. Decorre da morte de células dopaminérgicas de uma área cerebral denominada substância negra compacta. Quando a perda destas células é superior a 50%, surgem as manifestações motoras desta doença, sendo 4 as principais: bradicinesia (lentidão dos movimentos), rigidez das articulações, tremor e distúrbios posturais (equilíbrio e marcha). O tremor, que muitos associam a esta doença, pode inclusive não ocorrer. Outras manifestações são os distúrbios da fala (fala baixa e com articulação prejudicada), dificuldade para a deglutição e para escrever, face com pobreza de expressão, humor deprimido, piora do olfato.

O tratamento da DP inclui a fisioterapia, terapia ocupacional, fonoterapia, suporte psicoterápico e o uso de medicações. A atividade física é fortemente recomendada, quanto mais melhor.

O tratamento medicamentoso visa aumentar o nível de dopamina, o neurotransmissor que se encontra reduzido nesta doença em decorrência da perda das células dopaminérgicas, quer seja pelo uso de seu precursor (levodopa), pelo uso de substâncias que tem o mesmo efeito da dopamina (drogas dopaminérgicas) ou através de substâncias que reduzem a degradação da dopamina.

Atualmente, várias drogas estão disponíveis no mercado para o tratamento da DP. Não obstante, a mais eficaz continua sendo a mais antiga, a levodopa, disponibilizada desde 1967. Após 6 anos de tratamento, todavia, cerca de 50% dos pacientes apresentam efeitos adversos do tratamento com a levodopa, como : discinesias (movimentos anormais da boca, face, tronco e membros), redução da duração do efeito da levodopa, flutuações motoras e complicações psiquiátricas e gastrointestinais.

Estando o paciente adequadamente tratado (mínimo de 5 anos de doença) e se apesar disso as manifestações da doença ou os efeitos indesejáveis do tratamento forem causa de significante prejuízo para o funcionamento do paciente (atividades laborativas, atividades de vida diária), o tratamento cirúrgico pode ser indicado. Deve-se salientar que: 1- A cirurgia não é curativa, sendo apenas mais uma forma de tratamento, sendo as demais já citadas ainda necessárias a cirurgia; 2- A decisão final pela cirurgia cabe ao paciente, após esclarecido quanto aos riscos e benefícios; e 3- Das manifestações da doença, as que apresentam melhor resposta ao tratamento cirúrgico são o tremor, a rigidez e a bradicinesia.

A deficiência de dopamina determina a hiperatividade de algumas estruturas cerebrais, como o núcleo subtalâmico e globo pálido interno, e isto é a causa das manifestações da DP. O tratamento cirúrgico visa, pois, a redução desta hiperatividade, seja pelo uso de estímulo elétrico (estimulação cerebral profunda = deep brain stimulation = DBS) ou pela inativação destas estruturas utilizando-se o aumento da temperatura local (cirurgia ablativa). A técnica mais utilizada em todo o mundo, nos dias atuais, é a DBS.

A DBS consiste no implante de eletrodos no interior do cérebro, naquelas estruturas que estão hiperativas na DP. Estes eletrodos são conectados através de cabos a um estimulador interno ( marca-passo cerebral) que é implantado no tórax, sob a pele, abaixo da clavícula. Todos estes componentes (eletrodos, cabos e marca-passo) ficam sob a pele, nada estando exposto. Após a cirurgia, ao longo de vários dias, utilizando-se um programador (uma espécie de computador portátil), o marca-passo é progressivamente programado para se obter alívio das manifestações da doença.

Acentuado alívio do tremor é obtido em 90% dos casos, da rigidez, em 85%, e da bradicinesia, em 70%.

Os riscos da cirurgia são baixos, destacando-se pequena hemorragia, em 3%, e grande hemorragia com consequências devastantes como paralisia, perda da fala ou mesmo óbito, em 0,5%. Infecção do sistema de neuroestimulação pode ocorrer em 3 a 5% dos casos.

Cumpre salientar que o Instituto de Neurologia de Goiânia é um dos maiores centros de referência para o tratamento cirúrgico da Doença de Parkinson na América Latina.

Por Prof. Dr. Osvaldo Vilela Filho, neurocirurgião, PhD. Serviço de Neurocirurgia Funcional e Estereotáxica do ING