Frente a pandemia da COVID-19 vivida nos últimos meses, muitas preocupações têm surgido sobre diversos aspectos da infecção, dentre elas os tipos de métodos diagnósticos e a importância destes no contexto atual.

No momento, dispõe-se das seguintes técnicas para diagnóstico da infecção pelo SARS-CoV-2: testes moleculares de amplificação de ácido nucléico por PCR em tempo real (RT-PCR para COVID-19); e testes imunológicos ou sorológicos (teste rápido ou sorologia para detecção de anticorpos).

O teste recomendado (padrão ouro) para o diagnóstico laboratorial da COVID-19 é o teste RT-PCR (Real TimePolymerase Chain Reaction). Sua especificidade é próxima de 100%, mas a sensibilidade varia de 63 a 93%, de acordo com o início dos sintomas, dinâmica viral e qualidade do espécime coletado. A amostra é obtida através de swab de nasofaringe. Em geral, pode estar positivo a partir do primeiro dia de sintomas, com pico na primeira semana, podendo permanecer detectável por até 3 semanas em pacientes graves. Tal teste amplifica sequências de RNA do vírus, possibilitando sua identificação. Um aspecto extremamente relevante é a respeito da sensibilidade do método em situações de baixa carga viral (amostra inadequada, coleta de material fora do período oportuno, indivíduos assintomáticos). O último consenso de sociedades médicas brasileiras refere que os pacientes com COVID-19 parecem ter excreção viral diminuída nos primeiros três dias de sintomas, com aumento da positividade a partir do 4º ao 6º dia de doença.

Os testes sorológicos, por sua vez, podem ser feitos através de métodos imunocromatográficos (testes rápidos), técnica de ELISA (Enzyme-linked immunosorbent assay) ou quimioluminescência. Possuem a capacidade de detectar anticorpos das classes IgA, IgM e IgG. produzidos a partir da infecção pelo SARS-CoV-2. A detecção de anticorpos de fase aguda (IgA e IgM) parece se iniciar em torno do 5º dia de doença. Apesar da IgM poder ser detectada já a partir do 5º dia, IgM e IgG estão presentes em maior nível a partir da segunda e terceira semanas. Estudos mostram a soroconversão a partir da 3º e 4º semanas. Os testes rápidos amplamente divulgados, porém, são qualitativos, indicando apenas a presença ou ausência de IgM e/ou IgG. Tem sua utilidade para inquéritos epidemiológicos. Altos títulos de IgG poderiam correlacionar-se com anticorpos neutralizantes, porém a duração da proteção ainda é incerta. Outro ponto importante é que os testes rápidos podem ter reação cruzada com outros vírus (incluindo arboviroses, como Dengue) e até vacinação contra Influenza. Os testes sorológicos devem ser realizados no momento de sua maior sensibilidade para auxiliar no diagnóstico da infecção. É importante ressaltar que o valor preditivo negativo destes exames na fase aguda da doença é baixo e, portanto, não excluem a infecção em pacientes sintomáticos. Igualmente baixa é a sensibilidade destes testes nos indivíduos assintomáticos, principalmente se realizados antes do 5º dia de doença. Ainda não existem dados para indicação destes testes para diagnóstico precoce, podendo ser úteis para o diagnóstico tardio em pessoas que tiveram quadro respiratório sem etiologia definida. Presença de IgG pode ser utilizada como confirmação de doença prévia por COVID-19.

Em indivíduos assintomáticos, as sorologias possuem baixa sensibilidade, o que pode acarretar resultados falso-negativos, especialmente se realizadas antes do 5º dia do início da doença.

O presente documento tem por objetivo alertar quanto ao uso racional destas metodologias para o diagnóstico da COVID-19. Exames solicitados de forma indiscriminada, fora do período ótimo para sua realização e sem um contexto clínico bem definido, podem não ser úteis o suficiente e levar a erros de interpretação e, consequentemente, conclusões e condutas equivocadas.

 

Dra. Ana Beatrix Ferreira Caixeta

Infectologista ING

CRMGO 16036

 

Referências

  1. Ministério da Saúde. Diretrizes Para Diagnóstico E Tratamento da COVID-19. Brasília (DF), 17/04/2020
  2. Sethuraman N, Jeremiah SS, Ryo A. Interpreting Diagnostic Tests for SARS-CoV-2. Published online May 06, 2020. doi:10.1001/jama.2020.8259
  3. GRUPO FORÇA COLABORATIVA COVID-19 BRASIL. Orientações sobre Diagnóstico, Tratamento e Isolamento de Pacientes com COVID-19. Versão 01 Data:13/04/2020
  4. WangW, Xu Y, Gao R, et al. Detection of SARS-CoV-2 in different types of clinical specimens. JAMA. 2020. Published online March 11, 2020. doi:10.1001/jama.2020.3786