Aqui vai a história de um paciente com 4 alternativas diferentes : Um homem de 67 anos sente uma brusca diminuição de força da mão direita, que ficou um pouco adormecida,”boba”. Movimentou esta mão com a esquerda, esfregou e ao final de uns dez minutos voltou ao normal.

1. Ficou por isso e resolver esperar. Mais tarde no mesmo dia, o quadro repetiu, mas mais forte, ao braço todo ficou sem força, a boca entortou e perdeu a fala.

2. Ligou para um médico amigo que o aconselhou aguardar um pouco. Mais tarde no mesmo dia, o quadro repetiu, mas mais forte, o braço todo ficou sem força, a boca entortou e perdeu a fala.

3. Imediatamente foi a um hospital e atendido disseram estar com pressão alta (180×100), colocaram um remédio debaixo da língua e o liberaram. Mais tarde no mesmo dia, o quadro repetiu, mas mais forte, o braço todo ficou sem força, a boca entortou e perdeu a fala.

4. Imediatamente foi a um hospital e, mesmo tendo recuperado, foi internado, não abaixaram a pressão, foi medicado e submetido a diversos exames. Descobriu-se então que além de pressão alta, tinha aumento de colesterol, moderado diabetes e havia uma placa de ateromatose ocluindo quase totalmente a artéria carótida esquerda no pescoço. Foi encaminhado para cirurgia, a placa retirada e não houve mais repetições. Além disto, verificou-se que tinha também ateromatose de coronárias mas que podia ser cuidada clinicamente.

Espero que tenha ficado bem claro que sintomas neurológicos transitórios podem ser premonitórios de algum maior, e pior, que está anunciando e prestes a chegar. É como a angina pectoris (dor no peito) que precede o infarto do miocárdio.

No caso do paciente acima trata-se do que chamamos ATAQUE ISQUÊMICO TRANSITÓRIO ou “ ameaça de derrame” ou “ pequeno derrame”. A causa é uma falha brusca e fugaz na circulação de sangue isquemia) em uma área do cérebro que controla o movimento do membro superior e a fala. Chama-se ataque por ser agudo, abrupto e transitório por durar minutos e regredir espontaneamente. No caso relatado, a placa ateromatosa que estreita a artéria carótida, além de diminuir o fluxo de sangue para o cérebro, pode soltar fragmentos que sobem e obstruem uma artéria menor dentro do cérebro provocando a isquemia. Como este fragmento pode ser friável, é quase imediatamente dissolvido pela própria pressão do sangue. A restauração da circulação do sangue assim tão breve é capaz de livrar aquela área de danos e reverter os sintomas. Quando ocorre um ataque isquêmico transitório sabe-se que 10% dos pacientes terá repetição nas primeiras horas. Este risco é excessivamente alto numa situação que pode ser prevenida.

O cérebro tem várias funções que são alojadas em áreas especializadas. De tal modo que se a isquemia ocorrer em uma delas, os sintomas serão diferentes se ocorresse em outro local.

Por isso as manifestações de derrames, transitórios ou definitivos, são variadas. No caso acima a área inicialmente comprometida foi a que controla o movimento do braço (área motora no lobo frontal contralateral, ou seja do lado E do cérebro); o segundo ataque atingiu também a área vizinha que controla a fala. Se fosse no lobo occipital, a manifestação seria distúrbio da visão; se no lobo parietal seria dormência no lado oposto do corpo.

Esta é a maior dificuldade em explicar quais sintomas são indicativos de AVC ou AIT, mas estatisticamente são mais frequentes:

  • Fraqueza localizada num braço ou perna ou nos dois do mesmo lado;
  • Boca torta para um lado
  • Alteração da fala ou de sua compreensão
  • Dormência ou formigamento de um lado do corpo.
  • Perda súbita da vista de um olho
  • Alteração aguda da consciência ou confusão mental

O AIT e o AVC são emergência médica porque os tratamentos disponíveis são mais eficazes se realizados nas primeiras horas.