Talvez não exista nada mais assustador do que presenciar uma crise epiléptica num familiar. Para os adultos que apresentam essa enfermidade, o medo de ter uma crise pode levar a outras condições associadas, como ansiedade e depressão. Contudo, se for uma criança, o desespero e medo que causa na família é bem mais perturbador. Assistir um filho ou sobrinho tendo uma crise epiléptica é uma experiência bastante traumática. Porém essa condição não é tão rara, pois a epilepsia ocorre em 1 a 1,5 % da população mundial e apresenta um pico de prevalência na infância e outro na população idosa, isto é, a faixa etária pediátrica e a da senilidade são períodos de risco para ocorrência de epilepsia.

O mais importante após uma primeira crise epiléptica é fazer uma boa avaliação com um especialista. Isto porque o fator principal que vai determinar o sucesso do tratamento é identificar de maneira correta a causa das crises epilépticas, saber o que está gerando a epilepsia. Muitas vezes quando pensamos em crise epiléptica, imaginamos casos graves, de pessoas com doenças neurológicas ou que é uma condição para toda vida. Quando se trata de crianças, que estão estudando e em pleno desenvolvimento, várias perguntas vem na mente dos pais, e o temor de que as crises ou o uso de uma medicação possa interferir no desenvolvimento da criança é sempre um motivo de preocupação.

As causas de epilepsia são várias. Durante a investigação após uma primeira crise epiléptica é importante, além de uma boa avaliação clínica, a realização de um exame de neuroimagem. Esta conduta visa determinar se o que está causando a epilepsia é alguma lesão do cérebro, como uma malformação, uma cicatriz ou até um tumor cerebral. Ou seja, algumas vezes uma lesão cerebral é a responsável pela ocorrência das crises epilépticas e sua identificação através dos exames de imagem farão este diagnóstico.

 

No entanto, a epilepsia pode ser de origem genética, algo bem comum na infância. Nestes casos os exames de neuroimagem serão habitualmente normais e o exame principal para diagnóstico de epilepsia é o eletroencefalograma (EEG).

Existem vários tipos de epilepsia na infância e, na maioria dos casos, o tratamento costuma obter bons resultados, com controle total das crises com o uso de apenas um fármaco antiepiléptico.

Dentre os tipos de epilepsia que ocorrem na infância, destacamos a chamada epilepsia rolândica, cujas crises epilépticas iniciam-se entre os 3 e 7 anos, geralmente no período do sono, levando a criança a despertar sem conseguir falar, com tremores em um lado da face, podendo seguir para todo um lado do corpo. O diagnóstico desta condição se faz através da avaliação clínica e pelo achado característico do EEG.

Outra forma de epilepsia da infância são as chamadas crises de ausência, quando a criança apresenta subitamente episódios de parada comportamental, fica sem resposta ao ambiente, por vezes com piscamentos, com duração de poucos segundos, podendo ocorrer várias vezes ao dia. Este tipo de crise é facilmente desencadeada em consultório, ao se solicitar que a criança faça uma hiperpnéia, ou seja, uma respiração rápida e profunda por 1 a 2 minutos.

Uma outra condição especial que ocorre em crianças entre 6 meses e 5 anos são as chamadas crises febris. Estas não são consideradas epilepsia, pois ocorrem apenas com fatores externos como a febre e infecções. Na imensa maioria das vezes não há menor necessidade de se usar medicação de uso contínuo em crianças com crises febris. Também é dispensável exames de neuroimagem nesta condição.

Portanto o mais importante ao se avaliar uma suspeita de epilepsia, é realmente confirmar a presença desta através de uma detalhada história clínica e exames complementares, quando necessários. Existem condições que simulam ou parecem uma crise epiléptica e podem até levar ao uso inadvertido de medicações que nada tem a ver com a causa do problema. Em especial na infância, é muito comum que pessoas achem que é epilepsia, eventos de origem não epiléptica, como crises de perda de fôlego, síncopes (desmaios por queda da pressão arterial), tiques motores (cacoetes), etc.

No caso de confirmação da epilepsia, o conhecimento por parte do especialista fará com que a escolha da medicação seja a mais adequada ao perfil do paciente e do tipo de epilepsia, propiciando um tratamento eficaz e com menor risco de efeitos colaterais.

 

Por Dr. Hélio van der Linden Júnior, Neurologista Infantil e Neurofisiologista.