A hidrocefalia de pressão normal (HPN) também conhecida como hidrocefalia normotensa ou oculta, é uma entidade provocada por retenção de liquido cefalorraquiano (LCR), dentro das cavidades (ventrículos) que existem normalmente dentro do cérebro. Nos ventrículos o LCR é produzido continuamente, enchendo-os e, por orifícios naturais, escoa para o canal da coluna vertebral e para os espaços entre o cérebro e o osso do crânio. O trabalho original que descreveu esta condição clínica foi publicado em 1965 pelos Salomon Hakim (neurocirurgião colombiano) e Raymond D. Adams (professor de Neurologia da Harvard Medical School) daí ser também conhecida como síndrome de Hakim-Adams.

Por mecanismos diversos pode haver retenção do LCR dentro dos ventrículos provocando a sua dilatação, o que se chama de hidrocefalia. Existe aquela com aumento de pressão do liquido (hidrocefalia hipertensa), levando a aumento da pressão intracraniana.

Mas existe também a forma normotensa, com pressão intracraniana normal, que provoca sintomas e sinais neurológicos apenas pela dilatação ventricular e distensão das estruturas intracranianas, configurando o quadro da HPN.

A HPN é uma condição não muito frequente e pode ser consequente a uma doença neurológica prévia (traumatismos, hemorragias e meningites) ou não ter uma causa conhecida e que é o assunto desta resenha.

A HPN acontece quase sempre em pessoas idosas, os sintomas são lentamente progressivos, com alterações da marcha, dificuldades para conter urinas e comprometimento das funções cognitivas.

A alteração da marcha costuma ser o primeiro sinal, a pessoa percebe um certo desequilíbrio, as pernas mais abertas e os passos mais arrastados ao caminhar. Com o tempo vai piorando, dificuldade para levantar e iniciar a marcha e as vezes os pés parecem pregados no chão. Pode-se confundir com doença de Parkinson. Quedas são frequentes.

Ao mesmo tempo ou mais tarde aparece dificuldade no controle da urina, com gotejamento urgência ou franca incontinência, com perda involuntária de urinas.

Mesmo no inicio familiares percebem que o paciente apresenta uma certa lentidão de raciocínio, prejuízo da atenção, dificuldade de execução de tarefas habituais e falhas leves de memória. O paciente torna-se apático e com o evoluir da doença todos esses sintomas vão agravando progressivamente, podendo chegar à demência muito parecida com doença de Alzheimer.

Com estas queixas e com alterações sugestivas na avaliação neurológica, a HPN é suspeitada e deve-se realizar investigação com neuroimagem, sendo a ressonância magnética do crânio o exame mais apropriado. Visualiza-se claramente a hidrocefalia e outros sinais radiológicos que definem o diagnóstico da HPN.

Neste momento indica-se realizar uma punção lombar com retirada de LCR o que promove uma melhora quase imediata do distúrbio da marcha e isto confirma o diagnóstico de HPN.

O tratamento da HPN é cirúrgico com a intenção de promover a drenagem do excesso de LCR. Existem tipos diferente de cirurgia sendo que a mais comum é a derivação ventrículo-peritoneal com interposição de válvula. A cirurgia costuma reverter rápida e completamente o quadro neurológico e deve ser indicada precocemente.

Dr. Joaquim da Costa

Neurocirurgião do ING

CREMEGO  1991        RQE 3012