A IDÉIA, A CRIAÇÃO

Em 1971 os neurologistas e os neurocirurgiões de Goiânia formavam 3 equipes independentes.

  1. Orlando Martins Arruda (OMA), Ruy Ignácio Carneiro (RIC), Sebastião Eurico de Melo Souza (SEMS) e Roberto Arão Gomes (RAG)
  2. Paulo Afonso do Egito Guimarães (PG) e Abdo Badim (AB).
  3. Henrique da Veiga Lobo (HVL) e Valter da Costa (VC)

Durante internação do OMA, para instalação de marcapasso cardíaco, ele disse ao HVL “acabou-se a época do individualismo, o ideal seria que nos uníssemos e construíssemos um hospital especializado”. Esta ideia difundiu-se e, numa viagem para Campinas SP, AB, PG e SEMS se entusiasmaram e, entre os cochilos do AB, se dispuseram a levar o projeto adiante.

Reuniões se sucederam nas sedes das equipes e finalmente em 09/09/1971 criou-se o INSTITUTO DE NEUROLOGIA DE GOIÂNIA (ING), composto pelos neurologistas e neurocirurgiões atuantes, todos citados acima, com cotas iguais e em sistema de caixa único, exceto o atendimento de consultórios individuais.

Uma das intenções iniciais era não atender a Previdência Social, devido a baixíssima remuneração profissional.

O objetivo era locar o prédio da Santa Casa na Rua 4, em frente ao Hospital São Lucas, onde funcionava o Setor Administrativo. Mas durante as lentas negociações, emperradas na direção da Santa Casa, surgiu a oferta do Hospital São Francisco de Assis (HSFA).

Este hospital estava recém construído, com arquitetura hospitalar moderna e específica, o que não era comum em Goiânia daquela época. Com o aval do proprietário Dr Hugo Frota, fechou-se o negócio, instalando-se o ING naquele local em fins de 1971 (ou início de 1972). Como primeira medida, paradoxalmente, foi buscar o credenciamento da Previdência Social.

O sucesso foi imediato e notável, transformando o ING em ponto de referência e busca da maior clientela da cidade.

As causas deste fenômeno foram múltiplas. Na opinião de Ruy Carneiro foi a harmonia e o bom relacionamento, que se instalaram de imediato, de uma forma magnífica, entre os componentes do grupo. Mas outros fatores também contribuíram, como a competência dos profissionais, o plantão especializado, o atendimento indiferenciado, entre outros.

Ali o ING fez o seu aprendizado e consolidou-se como sistema de atendimento especializado.

Em 1972, OMA encontrou uma área à venda no Setor Bueno, uma oferta da Imobiliária Alencastro Veiga e contatou seu proprietário e amigo Ary. Entretanto foi VC que precipitou a compra da área, fruto de sua característica empolgação, uma vez que havia outros interessados. O próprio VC conta que, premido pelas circunstâncias, efetuou a compra com seus próprios cheques e que se lembra claramente dos valores. Foi então ao AB e OMA, contou o fato e disse que, se o ING não assumisse a compra, ele ficaria com a área. Este fato, de importância histórica, determinou a instalação da sede definitiva do ING. Logo a seguir, como a área fosse considerada pequena para o que se pretendia, PG conseguiu a aquisição do lote ao lado, que foi cedido por Alex Rassi, perfazendo o tamanho necessário para a construção.

O ING quando no HSFA foi o laboratório ideal e necessário para o crescimento da instituição. Ali foram criados os fundamentos, as bases sólidas e vínculos que consolidaram a empresa. Profissionais que ali estavam, naquele instante, continuaram sempre ligados ao ING até os dias de hoje. Posso me lembrar perfeitamente de rostos juvenis de Alberto Las Casas, Luiz Zanini, entre outros.

Um fato relevante foi a entrega do Serviço de Neurofisiologia Clínica a um especialista neste setor, o que era inovador, porque na época quem realizava os exames costumava ser o neurologista ou o neurocirurgião. Assim, aderiu ao grupo o competente neurofisiologista Carlos Roberto de Faria, recém-chegado de especialização em Hamilton, Canadá, com Prof. Alan J McComas, instalando um inovador serviço de Eletromiografia.

Em 1973 iniciou-se a construção da sede própria, com um projeto arquitetônico hospitalar específico, elaborado por um arquiteto carioca, escolhido pelo AB, provavelmente por indicação de seus conhecidos do Rio de Janeiro, de onde era oriundo. A construtora escolhida foi a que estava construindo a Associação Médica na Avenida Mutirão.

Por motivos que desconheço, a construtora foi dispensada depois de algum tempo e o AB trouxe seu irmão Roberto para finalizar a obra.

O tempo ia passando, eu fui estagiar em Londres de agosto de 1972 a dezembro de 1973. Assim que retornei, a obra estava iniciando e eu desembolsei todo o dinheirinho que me restava da venda de minha casa, para dar entrada na construção. Tive que morar alguns meses na casa de meus pais, até conseguir me sustentar novamente.

Em 1975, o sócio RAG se afastou da sociedade. Luiz Fernando Martins (LFM), que quando acadêmico de Medicina, acompanhara nosso serviço, retornou da Alemanha onde realizou sua formação em Neurocirurgia por 5 anos. Foi incorporado à sociedade, adquirindo parte de cotas de OMA, SEMS e RIC.

Em 29 DE NOVEMBRO DE 1975 aconteceu a inauguração da sede própria do ING, que acabou ficando conhecido popularmente como HOSPITAL NEUROLÓGICO.

Na solenidade de inauguração discursaram o Governador Irapuã da Costa Jr, o Arcebispo Dom Antônio Ribeiro de Oliveira e o RIC, representando o ING. Esteve presente o Prefeito Francisco de Castro.

O hospital inaugurado contava com 14 apartamentos, 6 leitos de UTI, 3 salas de cirurgia, 16 leitos de enfermaria e, como recursos diagnósticos, 3 aparelhos de EEG, um Eletromiógrafo e um aparelho de RX com capacidade para realizar angiografia.

Não posso me esquecer de um aparelho de ultrassom transcraniano que precariamente podia determinar a linha média do crânio e que era usado em traumatismos com a pretensa intenção de detectar hematomas que desviassem a linha média. A minha experiência com aquela pesada máquina, que eu tinha que transportar para todo o lado, era que ela não servia para nada, o que se confirmou logo e desistimos de usa-la, para meu alívio.

O LFM implantou de imediato o serviço de tratamento cirúrgico da doença de Parkinson utilizando técnica de estereotaxia que havia aprendido em Berlin. É um método que localiza com perfeição os alvos dentro do cérebro através de coordenadas matemáticas. Foi um dos 5 primeiros serviços instalados no Brasil.

No início de 1976, o VC foi para Boston nos Estados Unidos, onde estagiou em 2 hospitais da Harvard University, em treinamento por 1 ano em Neurocirurgia vascular, trazendo importantes avanços na cirurgia de aneurismas para nosso hospital.

O sucesso do ING aumentou extraordinariamente, passando a se tornar referência nacional em Neurologia e Neurocirurgia. Os fatores primordiais devem ser destacados, porque servem de exemplo e motivação para os que pretendem seguir o mesmo caminho e valorizam a nós, sócios fundadores, que tínhamos as qualidades que garantiram o sucesso do ING até os tempos atuais.

Os primeiros anos foram duros porque tínhamos que ceder parte dos honorários profissionais para fazer frente às despesas do hospital e quitar as parcelas do financiamento da CAIXEGO. Éramos movidos apenas pelo entusiasmo, pelo prazer de estar trabalhando no que era nosso e fazendo a melhor Medicina possível para a época.

Como alguns de nós eram docentes na Faculdade de Medicina da UFG, de imediato criamos o espaço acadêmico com a implantação do Programa de Especialização/Residência em Neurologia, Neurocirurgia e Neurofisiologia Clínica, iniciando em janeiro de 1976. Estávamos cumprindo uma das metas do nosso plano original quando da criação do ING.

Como salientou PG, o hospital não é uma empresa lucrativa. Estariam os sócios fundadores em melhores condições financeiras se houvessem aplicado em outras fontes. Entretanto todos estão satisfeitos e realizados. Isto acontece porque o ING é a nossa casa de trabalho, é como a casa onde moramos, que gastamos para construir ou comprar, que estamos sempre reformando, que nos gera despesas com água, energia e impostos e, entretanto, não nos dá nenhum lucro.

Por. Dr. Sebastião Eurico de Melo Souza