Sintomas, manifestações e complicações neurológicas associadas ao coronavírus (covid-19).

No dia 11 de março de 2020, a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou a doença pelo Coronavírus (Covid-19) como sendo uma pandemia mundial. E, na mesma data em 2021, havia mais de 90 milhões de casos confirmados em todo o mundo, em 218 países e mais de 1.9 milhões de mortes.

A maioria dos pacientes com Covid-19 apresentam sintomas respiratórios discretos, como tosse seca, febre e leve falta de ar. Porém, várias manifestações neurológicas tem sido associadas à esta doença. Pelo menos um sintoma neurológico tem sido relatado em 90% dos pacientes, demonstrando a importância das manifestações neurológicas. Dor de cabeça, diculdade com memória e tonturas tem sido os sintomas neurológicos mais frequentes.

As manifestações neurológicas podem resultar do comprometimento do sistema nervoso central (SNC), sistema nervoso periférico (SNP) e do sistema músculo-esquelético.                Diversos mecanismos tem sido descritos para explicar a penetração do vírus no sistema nervoso, como pela cavidade nasal, nervos olfatórios, bulbo olfatório e cérebro. Outra possível explicação é através do sangue, uma proteína (spike) expressa na superfície do vírus se liga a uma enzima (enzima conversora de angiotensina 2), presente em células do SNC, promovendo a neuroinvasão. Esta enzima é encontrada também em vários outros órgãos (vias respiratórias, rins, intestino grosso, parênquima pulmonar, endotélio vascular), justificando assim a presença de diversos sintomas no organismo.

Os sintomas neurológicos podem ocorrer antes mesmo dos sintomas respiratórios e até serem indicadores da infecção pelo SARS-CoV2, em pacientes assintomáticos.

Disfunções olfatória (alteração de olfato) e gustatória (paladar) são os distúrbios neurológicos associados com o SNP mais comuns da Covid-19. Estas disfunções são biomarcadores da doença e devem fazer parte das medidas preventivas destinadas a controlar a propagação do coronavírus.

A mialgia, dor muscular, é comum nos pacientes com Covid-19. É ainda incerto se as manifestações musculares ocorrem por uma inflamação sistêmica inespecífica ou por invasão direta ao músculo e sua presença não se relaciona com a gravidade da doença.

A dor de cabeça é o sintoma neurológico mais comum, e, pode ser inclusive, o primeiro sintoma da Covid-19. Pode ocorrer logo no início da infecção ou mesmo persistir por meses.  Deve sempre ser avaliada, pois também pode indicar complicações da doença, como hipertensão intracraniana idiopática, tromboses venosas cerebrais e mesmo  encefalopatia posterior reversível.

Confusão mental aguda é um achado  que ocorre em maior proporção em pacientes com outras doenças prévias, porém acontece mesmo em pacientes prèviamente saudáveis, tanto por uma invasão direita do vírus no cérebro, quanto pela reação da infecção no organismo.

Algumas complicações neurológicas também tem sido descritas na literatura e podem ser explicadas por três mecanismos principais. O primeiro se deve às consequências neurológicas devido a doença pulmonar (hipóxia – redução da oxigenação) e a doença sistêmica associada. O segundo mecanismo envolve as manifestações neurológicas que resultam na invasão direta do vírus ao SNC e, por fim, as complicações neurológicas relacionadas com a resposta imunológica do paciente durante ou mesmo após a infecção virótica.

No primeiro grupo se enquadra o AVC (acidente vascular cerebral), que têm uma prevalência estimada de 2,5%, porém quando se trata de pacientes hospitalizados, isto  aumenta para 6%. O AVC ocorre tanto devido a inflamação das paredes das artérias quanto por alteração da coagulação, sendo importante avaliar marcadores destas condições para definir os pacientes que apresentam maior risco e tratá-los adequadamente. Outra complicação cardiovascular, menos comum, também relatada, é a trombose venosa cerebral.

A Covid-19 pode ainda não somente piorar crises convulsivas em pacientes epilépticos controlados, mas também causar convulsão naqueles sem histórico de crises. Ocorre em torno de 0.9% dos casos.

O SARS-CoV 2 atinge diretamente o sistema nervoso, podendo causar infecção local, com comprometimento do cérebro, meninges e medula espinhal, causando encefalite, meningite e/ou meningoencefalite, e também mielite aguda. Estas condições neurológicas graves exigem diagnóstico preciso e tratamento precoce.

Algumas doenças estão ainda relacionadas com a resposta imunológica – de defesa – do organismo frente a infecção, como nos casos da síndrome de Guillain-Barré e suas variantes, que podem ocorrer dias após a infecção aguda e se apresentam com perda de força muscular progressiva.

Diversos estudos estão sendo realizados para melhor compreensão do acometimento neurológico pelo SARS-CoV2, porém sabe-se que o acompanhamento neurológico desses pacientes é de suma importância para evitar complicações, e se ocorrerem, que sejam precocemente identificadas e tratadas.

Dra. Aline Leite Duarte

CRM GO 13.848

Neurologista do ING