Havia um conceito antigo que o sistema nervoso central (SNC) não tinha recursos para se recuperar após algum tipo de lesão que o atingisse. Uma vez lesado, nada se podia fazer.

Entretanto, contrariando este paradigma, observava-se na prática, algum grau de melhora espontânea nos pacientes, por exemplo, após acidente vascular cerebral (AVC).

Aos poucos foram sendo realizados estudos que demonstraram que o SNC tem capacidades para contornar deficiências produzidas por injúrias.

Algumas condições naturais constituem mecanismo de defesa do SNC como 10% de fibras diretas, não cruzadas, de um hemisfério cerebral para o mesmo lado do corpo, que não são atingidas por uma lesão hemisférica, como um AVC. Este contingente ileso permanece estimulando o lado paralisado. As células nervosas (neurônios) têm alguma resistência e podem sobreviver em situações de risco. Quando há carência de sangue numa área (isquemia), a parte central sofre déficit total que produz morte celular, enquanto na periferia a isquemia é parcial (penumbra isquêmica) e as células podem recuperar se as condições melhorarem rapidamente. Este é o fundamento das técnicas atuais de tratamento do AVC, para promover revascularização o mais precocemente possível, dentro das primeiras horas.

O neurônio é composto do corpo celular e de ramificações – axônio e dendritos – que o coloca em contato com outros neurônios, formando assim uma extensa rede de conexões, que é a base do funcionamento do SNC. Quando uma criança nasce, ela já possui os neurônios em número definitivo para a vida toda. Dai em diante os neurônios vão criando as conexões (por isso é que o cérebro cresce) o que faz com que a criança vá desenvolvendo e adquirindo suas habilidades para andar, falar e todas as demais que a transforma no adulto. Treinamentos nesta fase são importantes para o aprendizado mais rápido e mais completo.

Esta capacidade de criar novos prolongamentos e novas conexões é permanente, apenas reduz com a idade e permite que o adulto também seja capaz de novos aprendizados. A isto se chama de NEUROPLASTICIDADE.

Depois de uma lesão no SNC, esta propriedade se mostra extraordinariamente ativa, em tentativa de reparar o dano que aconteceu e promover meios de adaptação à nova situação.

Os mecanismos intrínsecos da neuroplasticidade implicam em mudanças anatômicas e funcionais como aumento do número e da extensão das ramificações dos neurônios sobreviventes, buscando realizar novos contatos substituindo aqueles perdidos pelas injúrias. A membrana do neurônio modifica ativamente sua estrutura criando novos receptores, os pontos de contato com outras células (sinapses) ampliam a eficácia funcional, há aumento de síntese de proteínas e outras fontes de energia. Neurônios de reserva, que existem em estado de “hibernação”, são recrutados e entram em ação. Esta operação emergencial ocorre no local da lesão, na sua periferia e à distância, envolvendo também o hemisfério cerebral oposto não atingido pela lesão.

A ressonância magnética funcional e o PET (positron emission tomography) demonstram claramente estas modificações que ocorrem no SNC em recuperação, inclusive a ativação de áreas distantes do foco de lesão.

Outro modelo experimental é a demonstração de aumento da rede vascular após lesão cerebral, com formação de novos vasos sanguíneos (angiogênese), que enriquece o cérebro em toda sua extensão com oferta de nutrientes. É um ponto relevante porquanto o intenso trabalho que vai ser executado para se conseguir a reogarnização pós-lesional, depende de inúmeros fatores no processo de recuperação como BNDF (fator de crescimento), VEGF (fator endotelial vascular), diversas neurotrofinas e outros. Estes fatores são como adubos para uma semente vegetal plantada.

A questão de terapia celular é sempre considerada, o transplante de células tronco (CT) é a utopia, intensamente investigado e onde se deposita muita esperança.O simples ato de colocar CT no cérebro não é a solução: tem-se que conhecer ainda qual a via preferencial, qual o local apropriado, qual o tempo certo, quais “adubos” são necessários. Há preocupação com o perfil de segurança, porque há riscos de complicações. Além disto a CT precisa “conhecer” e realizar todas as conexões das células pré-existentes para atingir uma função reparadora. Uma derivação deste tema é a terapia com outras células, não para substituir as perdidas, mas para fornecer os fatores tróficos indispensáveis e que tem resultados promissores, ainda em nível experimental.

Este é um campo de pesquisa em plena efervescência, com produção de trabalhos científicos que vão esclarecendo algumas dúvidas e revelando novos conhecimentos que poderão transformar o prognóstico da reabilitação neurológica em curto e médio prazos.

A neuroplastidade pode ser incrementada por algumas estratégias práticas. Há fortes evidências do benefício de exercícios, em suas diversas modalidades, que devem ser iniciados precocemente, em intensidade e freqüência progressivas e persistirem por longo tempo. Os primeiros meses são fundamentais porque é a época ótima para se conseguir os melhores resultados. Outras estratégias existem que também são úteis e novas técnicas foram introduzidas como realidade virtual, biofeedback e estimulações periféricas e cerebrais elétricas ou por ondas magnéticas.

Como as doenças neurológicas promovem deficiências de vários graus e de tipos diferentes (que podem ser isoladas ou associadas), a abordagem de neuro-reabilitação exige treinamento especializado, equipe multidisciplinar e aderência do paciente, cuidadores e familiares. A fonoaudiologia, a terapia ocupacional e a reabilitação cognitiva produzem resultados ao ampliar e estimular a neuroplasticidade, através de suas estratégias de retreinamento.

Nos últimos anos vários agentes farmacológicos estão sendo testados para estimular os mecanismos de recuperação neurológica, alguns mostrando-se promissores e estão sendo introduzidos na prática corrente Atualmente conseguem-se resultados satisfatórios em reabilitação e readaptação dos pacientes com seqüelas neurológicas, embora em variações individuais considerando-se a gravidade das lesões.

Por Dr. Sebastião Eurico de Melo Souza

Neurologista do ING.

CRM GO 770