Nem toda dor na cabeça é enxaqueca. Quando a dor tem uma distribuição fixa no rosto e se apresenta em episódios repetidos de curta duração com característica repentina (choques, fisgadas, facadas…) podemos estar diante de uma nevralgia.

Em teoria, qualquer nervo pode produzir nevralgia. Entretanto, a mais conhecida é a do nervo trigêmeo. Esse nervo é responsável pela sensibilidade da face, e tem três ramos: oftálmico, maxilar e mandibular. Cada um desses ramos inerva uma região específica da face (ver Figura).

A nevralgia do trigêmeo se caracteriza por crises repetitivas de dor súbita em choques ou pontadas, mais comumente nas regiões inervadas pelos ramos maxilar e mandibular. Apesar da característica episódica, os pacientes costumam ter vários ataques durante o dia, que podem durar segundos até alguns minutos. Alguns pacientes podem também apresentar um nível basal de dor contínua nessa região com duração de horas, sobre a qual sobrepõe os episódios súbitos com as características da nevralgia.

FIGURA  Adaptado de Robertson C. Cranial Neuralgias. Continuum. 2021;27(3):665-685. DOI: 10.1212/con.0000000000000962.

A causa mais comum de nevralgia do trigêmeo (a nevralgia “clássica”) é um contato do nervo, dentro do crânio com algum vaso sanguíneo (uma artéria). Acredita-se que a pulsação da artéria cause alteração na membrana do nervo, tornando-o suscetível a estímulos externos e ocasionando disparos de dor. Esses estímulos podem ser o toque na pele inervada pelo nervo e também qualquer ato que estimule as funções do nervo, como as motoras (por exemplo, mastigar) e, mesmo sem a presença de estímulos, os ataques de dor podem ocorrer espontaneamente.

A nevralgia tem necessariamente ser distinguida de outras dores da face, como as provocadas por problemas dentários. É muito frequente a primeira consulta ser com odontólogo. As sinusites também são muito pensadas pelas pessoas, mas as características da nevralgia são bem distintas.

O tratamento pode ser feito com medicamentos que reduzem o limiar de excitação dos neurônios e, em casos que não respondem ao tratamento medicamentoso, há tratamento cirúrgico, variando desde a descompressão microcirúrgica a outras técnicas que bloqueiam a transmissão da dor.

Mas, atenção. Apesar de corresponder a 75% dos casos, a nevralgia do trigêmeo clássica (por compressão vascular) não é o único tipo de dor trigeminal. Em cerca de 15% dos casos a causa é secundária, ou seja, há algo a se preocupar, como placas desmielinizantes na esclerose múltipla acometendo a porção de saída do nervo, ou mesmo compressões diversas como tumores na região do tronco encefálico de onde o nervo se origina. Os outros 10% restantes correspondem à nevralgia do trigêmeo idiopática, ou seja, mesmo após investigação não é encontrada uma causa para a dor. Esses casos costumam ser mais resistentes aos medicamentos.

Se você tem dúvidas ou sente esse tipo de dor, procure o neurologista para o devido esclarecimento e tratamento mais seguro.

Dr. Vicente Mamede de Arruda Filho – Neurologista ING.