O mundo inteiro vivencia a era da resistência microbiana. Com o advento da pandemia pela COVID-19 este grave problema de saúde pública se intensificou e está associado a um fator preocupante: o uso indiscriminado de antimicrobianos. Historicamente, com a descoberta dos antimicrobianos houve redução da mortalidade populacional pelas doenças infecciosas; com isso, o uso dos antibióticos cresceu de forma desordenada, o que levou a população para o cenário atual, que é preocupante. O resultado disso é a ampla resistência bacteriana, tornando ineficaz diversos tratamentos e promovendo sérios problemas clínicos, epidemiológicos e econômicos para todos os países.

As bactérias multirresistentes (MR) surgiram ao longo dos anos por esse uso indiscriminado de antibióticos e conceitualmente elas são definidas como aquelas não suscetíveis a, pelo menos, um agente em três ou mais categorias de antimicrobianos.

Na tentativa de buscar melhores desfechos clínicos para os pacientes, as sociedades americanas de doenças infecciosas criaram os programas de racionalização para o uso, como a gestão de antimicrobianos, conhecido mundialmente como Antimicrobial Stewardship, que é definido como intervenções coordenadas e destinadas a melhorar e a quantificar o uso de antimicrobianos para um esquema terapêutico mais seguro. Com isso, o resultado é a satisfatória evolução do paciente, redução de eventos adversos, melhora das taxas de suscetibilidade aos antimicrobianos escolhidos e ainda é possível otimizar os recursos financeiros.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) estima-se que nos Estados Unidos e países europeus, 25 mil pessoas por ano morrem devido a  infecções por microrganismos multirresistentes.

Atualmente os Serviços de Controle de Infecção Hospitalar (SCIH) do mundo inteiro enfrentam grandes desafios diante do cenário de descontrole quanto às medidas de prevenção e controle de infecção. Estas são reconhecidas há muito tempo como um importante componente da assistência à saúde para a segurança dos pacientes. O sucesso dos melhores desfechos clínicos está intimamente ligado ao cumprimento das boas práticas de controle das infecções relacionadas à assistência à saúde.

Os microrganismos multirresistentes foram classificados em 2017 pela OMS de acordo com sua importância epidemiológica, sendo que Acinetobacter baumannii, Pseudomonas aeruginosa e membros da família Enterobacteriaceae resistentes aos carbapenêmicos foram considerados de prioridade crítica,  Enterococcus faecium resistente à vancomicina (VRE) e Staphylococcus aureus resistente à meticilina (MRSA), ou com sensibilidade intermediária/resistência à vancomicina, constituem alta prioridade para vigilância, pesquisa e desenvolvimento de novos antimicrobianos. Além disso, pelo cenário atual os Clostridioides difficile também entraram na lista de prioridade para vigilância e controle.

Desse modo, medidas de prevenção e controle de infecções têm sido amplamente divulgadas, a fim de melhorar este cenário. A seguir, algumas das medidas recomendadas para o controle de microrganismos multirresistentes nos serviços de saúde:

  • Higienização das mãos: observar os cinco momentos recomendados para essa importante prática e melhorar a adesão dos profissionais através do monitoramento e capacitação;
  • Vigilância ativa e monitoramento: através da implementação de protocolos de vigilância ativa discutidos com o SCIH, equipe multiprofissional e o laboratório de microbiologia. Todas as decisões devem ser tomadas considerando a epidemiologia institucional. Para vigilância ativa, os principais sítios para coleta de material para exame (swabs) são: cavidades nasais para investigação de MRSA; cultura de fezes, swab retal ou perianal para investigação de VRE e Enterobactérias; swab da região orofaríngea, endotraqueal, retal, inguinal para investigação de Acinetobacter e Pseudomonas aeruginosa. Além disso, instituir medidas de precaução de contato para os pacientes com resultados positivos nas culturas de vigilância, realizar o monitoramento do perfil de sensibilidade dos microrganismos isolados de culturas positivas e monitorar patógenos emergentes.
  • Limpeza e desinfecção dos ambientes: a elaboração dos protocolos de limpeza e desinfecção de todas as áreas do serviço de saúde pelo SCIH é fundamental para este controle. Com isso, deve-se estabelecer uma rotina de monitoramento do processo de limpeza e desinfecção com testes químicos/biológicos, em situações de surto.
  • Capacitação: o SCIH junto à equipe de saúde deve estabelecer um programa de capacitação periódico específico para cada setor, sobre higienização das mãos, medidas de prevenção e controle das infecções e manejo de pacientes colonizados ou infectados por bactérias MR. Gerenciamento de antimicrobianos: o SCIH deve elaborar um programa de gerenciamento de uso de antimicrobianos e implementar junto ao corpo clínico institucional, além de estabelecer critérios para uso de terapia empírica.
  • Suporte da alta gestão do serviço de saúde: o SCIH precisa contar com máximo apoio da alta gestão para obtenção de recursos financeiros específicos para o monitoramento e controle de microrganismos MR.

Com o processo de desenvolvimento do Instituto de Neurologia de Goiânia, através de mecanismos de gestão e comprometimento dos setores vem sendo possível aprimorar as ações do SCIH para a busca de melhorias na assistência à saúde e reduzir os riscos de surtos por microrganismos MR em todas as áreas de cuidado ao paciente. Para o SCIH, além de lidar com a gravidade do cenário pandêmico da COVID-19, se faz necessário unir estratégias que possam impedir o descontrole das medidas de prevenção das infecções relacionadas à assistência à saúde.

 

Por Aglaid Valdejanc Queiroz Neves

Enfermeira Coordenadora do SCIH do INSTITUTO DE NEUROLOGIA DE GOIÂNIA (ING)

Doutoranda em Enfermagem-FEN/UFG. Mestre em Atenção à Saúde PUC/Goiás

COREN-GO: 461093

 

Referência:

Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária Prevenção de infecções por microrganismos multirresistentes em serviços de saúde – Série Segurança do Paciente e Qualidade em Serviços de Saúde. Brasília, 2021.